Imagine uma pequena ilha
encravada no meio da Amazônia. Uma vila habitada por algumas poucas famílias,
dentre as quais poderiam ser encontrados funcionários públicos, pequenos
comerciantes, pescadores e produtores rurais. Um mundo aparentemente sem chance
de redenção e sem muitas atividades que proporcionassem momentos de lazer para
os poucos habitantes que aqui arriscavam sobreviver. Um povo cuja vida era
regida pelos dogmas, mitos e lendas que ainda hoje norteiam o caminhar do homem
amazônico.
Agora imaginem entre esse
punhado de gente, uns poucos caboclos pobres e com pouca formação, mas dotados
de uma capacidade inventiva sem igual que em dado momento histórico resolveram
ir além do óbvio e criaram os bois-bumbás que, de uma singela brincadeira de
rua, transformou-se em uma das mais importantes manifestações culturais do
Brasil.
Como, quando e
por que isso aconteceu, na verdade ainda é um mistério, mas os homens se põem a
caminho, e a história de Parintins, um pequeno pedaço de chão primitivamente habitado por indígenas, banhado pelo caudaloso Rio Amazonas, será
para sempre transformada por suas trajetórias.
Origens
Não se pode
falar sobre o Festival Folclórico de Parintins sem se reportar aos seus maiores
expoentes, o Boi-Bumbá Garantido – que defende as cores vermelha e branca – e o
Boi-Bumbá Caprichoso - que ostenta as cores azul e branca.
As origens do
boi vermelho e branco podem
ser consideradas mais confiáveis, pois é consenso entre
todos que sua criação se deve a Lindolfo Monte-Verde. Somente com relação ao
ano de fundação é que não há acordo. Os familiares de Lindolfo e os sócios
afirmam que o ano exato da criação é 1913, quando ele ainda tinha onze anos de
idade. Já alguns “estudiosos do folclore” que, na sua grande maioria torcem
pelo boi Caprichoso, afirmam que o Garantido foi fundado em meados de 1920. Já a
procedência do boi Caprichoso é uma grande incógnita.
As informações
são desencontradas e nem mesmo entre os torcedores mais fanáticos existe
consenso. O que se sabe mesmo é que os dois bois existem, e certamente têm
contribuído sobremaneira com este chão nos aspectos econômico, cultural e
social. “Parintins ganhou alma, corpo e vida através da valorização e
divulgação de seu patrimônio cultural”, diz Odinéia Andrade – folclorista e
torcedora do Boi-Bumbá Caprichoso.
O auto do boi
A origem do auto do
bumba-meu-boi ou boi-bumbá remonta ao Ciclo do Gado,
no século XVIII, resultante das relações desiguais que existiam entre os
escravos e os senhores nas Casas Grandes e Senzalas. Reflete as condições
sociais vividas pelos negros e índios naqueles tempos.
Contado e recontado
através dos tempos, na tradição oral nordestina, e depois espalhada pelo Brasil, a lenda fundante adquire contornos de sátira, comédia,
tragédia e drama, conforme o lugar em que se revive, mas sempre levando em
consideração a estória de um homem e um boi, ou seja, o contraste entre, por um
lado, a fragilidade do homem e a força bruta do boi e, por outro lado, a
inteligência do homem e a estupidez do animal.
Do ponto de vista teatral,
o folguedo deriva da tradição portuguesa e espanhola, tanto no que diz respeito
ao desfile quanto à representação propriamente dita, de se encenarem peças
religiosas de inspiração erudita, mas destinadas ao povo para comemorar festas
católicas nascidas na luta da Igreja contra o paganismo.
Esse costume foi retomado
no Brasil pelos jesuítas em sua obra de evangelização dos
indígenas, negros e dos próprios portugueses aventureiros e conquistadores por
meio da encenação de pequenas peças.
A estória se passa numa
fazenda situada no interior do país. Encontram-se entre as personagens
principais um negro vaqueiro – Pai Francisco, sua mulher cabocla - Mãe
Catirina, e um homem branco, dono da fazenda e, portanto, do touro estimado. A
estas personagens principais e fixas podem juntar-se outras personagens móveis
dependendo da região onde ainda permanece o hábito de representar esse conto.
Diz a lenda que Mãe
Catirina, estava grávida e foi tomada pelo incontrolável desejo de comer língua
de boi, mas não era de qualquer boi, tinha que será língua do animal predileto
do patrão. Temendo que o filho nascesse doente, Pai Francisco, num ato de
desespero, mata o boi preferido de seu amo e oferece a língua à mulher,
desencadeando uma perseguição que só acaba quando um padre e um pajé conseguem
ressuscitar o animal.
A saga do Garantido
Com o propósito de tentar entender a história
das origens do festival de Parintins, partimos em busca de informações que
pudessem colocar uma luz sobre a ascendência dessa festa. Foi assim que
resolvermos buscar os vestígios da história junto àqueles que a evolução da
brincadeira relegou ao papel de “órfãos do folclore”.
Em uma humilde
casa, localizada na baixa da Xanda – uma homenagem feita a Alexandrina
Monte-Verde, de frente para Rio Amazonas, dona Raimunda Monte-Verde Tavares, a
Mundicaia, nos recebeu confortavelmente acomodada em um sofá surrado pelo
tempo, coberto com uma napa de cor alaranjada. Embaixo de seu pé direito um
tapete confeccionado com retalhos que ela mesma produz.
Mundicaia não possui a perna esquerda que fora
amputada por causa de um diabetes. Em lugar do membro perdido há uma prótese
emborrachada que ajuda em sua locomoção. Trajava um vestido de algodão azul
rendinha, vestuário típico da idade, em seu rosto marcas deixadas pelo tempo,
os cabelos estão grisalhos e uma memória que o tempo ainda não consumiu.
“Entrem” -
disse sorrindo a nossa anfitriã, deixando-nos perceber uma característica bem
comum aos nativos dessa ilha, a hospitalidade. Ao saber que estávamos ali para
coletar informações acerca das origens do Boi-Bumbá Garantido, adiantou: “não
tenho muito estudo e posso falar algumas palavras erradas”.
Ao falar de Lindolfo
foi possível perceber o encantamento com que pronunciava cada palavra, e relatou
os acontecimentos como se tivesse acontecido há pouco tempo.
- “Meu pai
nasceu no ano de 1902, o nome da minha avó era Alexandrina Monte-Verde, a Dona
“Xanda”, conta Mundicaia. “Ele não conheceu o pai porque a minha avó, depois
que perdeu o primeiro marido, convivia com um homem por três ou quatro anos,
depois deixava e convivia com outro”, explica Raimunda Monte-Verde, a filha de
Lindolfo, que ainda mantém vivas na lembrança as histórias sobre o pai. Uma das
narrativas sobre a origem de Lindolfo diz que seu genitor seria “um tal de
Marcelo Rolim”, diz ela sem saber ao certo a verdade.
Quando era
criança, diz ela, “meu pai era um menino muito alegre e curioso. Desde muito
pequeno ele ouvia as histórias de seu avô Alexandre Monte-Verde, vindo da África,
que contava que lá (África) as crianças tinham o hábito de confeccionar um boi
que era feito de forma artesanal”. “Os meninos pegavam um pedaço de madeira e
colocavam em uma das extremidades uma cabeça de boi e depois desafiavam os
outros para um combate.
“Normalmente o
boi mais fraco ficava sem a cabeça enquanto que o mais forte saía vitorioso e
desafiava outros bois para a luta”, conta Raimunda, deixando desabrochar um
sorriso repleto de encanto.
Pensando nisso
Lindolfo resolveu criar um boizinho para brincar. Isso ocorreu em 1913. “Certa
vez em uma das brincadeiras com os amigos a mãe de Lindolfo pôde descobrir onde
estava a capa de seu guarda-chuva. Lindolfo simplesmente usou-a como couro do
boi”, conta D. Mundicaia, dando a entender que o Garantido um dia já foi preto,
idéia que os torcedores mais apaixonados rejeitam veementemente.
“Na época de
meus avós as pessoas não se preocupavam em ter os documentos de seus terrenos,
habitavam terras que não eram suas, e nunca se incomodavam com os verdadeiros
donos dessas propriedades, pois geralmente não apareciam. Minha avó ficou muito
triste quando soube que um empresário de Manaus chamado Natalino Nogueira era o
dono das terras e preocupada com a possibilidade de ser deposta de sua moradia,
pedia toda tarde a seus filhos que rezassem com ela para que Sr. Nogueira não
voltasse à cidade e desistisse de suas terras.”
Lindolfo e sua
família já cultivavam no terreno seringa, mandioca, castanha e caju. Sr. Natalino, em uma de suas visitas a
Parintins, viu suas terras bem cuidadas e falou para dona Alexandrina que não
iria remover sua família da propriedade, mas em troca levaria Lindolfo para
trabalhar com ele na capital, “não seria como escravo”, diz Raimunda, seu
pagamento seria metade em dinheiro e a outra parte seria descontada em troca
das terras que abrigavam sua família.
“Minha avó
sofreu muito com a partida de Lindolfo, pensava no sofrimento que o filho iria
passar pra pagar essas terras”. Em suas cartas, Monte-Verde relatava tudo que
acontecia com ele na capital, e junto com as cartas vinha também dinheiro para
ajudar no sustento da casa.
A promessa de Lindolfo
Certo dia,
para cumprir uma ordem do patrão, Lindolfo, em companhia de outros
trabalhadores, entrou na mata para extrair madeira, episódio em que contraiu
uma grave infecção intestinal devido a sua alimentação precária composta
basicamente de feijão. Ainda na mata, sem recursos e sozinho, Lindolfo, que era
homem de muita fé, fez uma promessa a São João Batista para obter sua cura.
A promessa era
de que todo ano o boi sairia nas ruas, nos dias de São João, Santo Antonio e
São Pedro. O milagre aconteceu, Lindolfo recebeu a cura divina e o boi Garantido,
a partir desse momento, nunca mais seria o mesmo.
No auge de sua
juventude, Lindolfo muitas vezes teve que viajar em busca de recursos para
sustentar a família e durante sua ausência deixava sua preciosa criação nas
mãos dos cunhados, mas na época da festa se fazia sempre presente, cumprindo o
que prometera a São João Batista.
O Coração na
testa do boi foi idéia de D. Xanda, que ao ver o boi ser confeccionado, pediu
que cortassem um pedaço de papel vermelho em forma de coração e colassem na
testa.
Brincadeira de rua
Os ensaios iniciavam
sempre no dia 5 de maio, onde ainda hoje está instalado o curral do Boi-Bumbá
Garantido, e as apresentações em frente às residências ocorriam até o final do
mês de junho. Durantes essas evoluções, “a língua do boi era ofertada aos
moradores, estes pagavam para ter um pedaço da língua do touro amado”, conta
Mundicaia.
O patacão
(dinheiro) proveniente da venda da língua servia de pagamento para o cantor das
toadas e para uma espécie de confraternização oferecida aos brincantes no final
da apresentação. Antes que fosse entregue o prêmio ao torcedor, um ritual de
matança do boi era realizado. Antes da matança, o cantor de toadas entoava:
“Senhor
mestre tira a língua,
Faz
a tua obrigação,
E
leve ao dono da casa
receba
seu patacão”.
Então, pai
Francisco matava o boi, cortava um pedaço de fita que representava a língua e
pronunciava:
Daqui,
daqui, um caldo grosso.
Daqui,
daqui um guisado.
Daqui,
daqui um frito.
Após o ritual
da matança, a língua era entregue ao comprador como prêmio, logo acontecia
outro cerimonial, onde um padre e um pajé eram chamados e faziam o boi
ressuscitar prosseguindo com a festa.
Naquela época
as mulheres não participavam da brincadeira, podiam se conformar apenas como
telespectadoras; os itens femininos eram defendidos pelos próprios homens que
se fantasiavam de mulher.
A saga do Caprichoso
Para explorar as origens do Boi-Bumbá Caprichoso, procuramos um de
seus vários “donos”, que nos recebeu em sua casa construída em madeira e
alvenaria, localizada na Rua Cordovil, no centro da cidade de Parintins, no
mesmo local onde era o antigo Curral do Caprichoso, onde ainda mora o seu Luiz
Pereira dos Santos, conhecido até os dias de hoje como o “dono do boi Caprichoso”.
As
informações por ele prestadas contrastam com as relatadas pelo escritor e
historiador amazonense Tonzinho Saunier (1932-1999) e também com a versão
defendida por Odinéia Andrade – Folclorista e torcedora do “touro negro”.
Segundo Tonzinho, “o boi Caprichoso surgiu em 1913, trazido de Manaus pelo
senhor Emídio Vieira” (SAUNIER, 2003). Já para Odinéia, o criador do Boi-Bumbá
Caprichoso foi Roque Cid.
O
senhor de olhos claros e desconfiados, camisa e bermuda azuis, as mesmas cores
da decoração de sua casa, onde em cada canto as cores azul e branco predominam,
perde a desconfiança ao ouvir o nome do Caprichoso e responde com orgulho uma
frase que repete há muitos anos:
“O boi
teve sete donos, o oitavo e último fui eu. Para mim me tornar o dono, o boi ficou
largado em cima de um girau, aí passou dois ou três anos, ai eu falei com o meu
sogro”:
- “Bora
lá pegar o Caprichoso”? Ai fui lá pedir e botei pra frente o boi que estava
esquecido. Eu só não lembro mais o ano. Só de boi eu
tenho 35 anos, daí tu tira”.
“Fui eu que ajudei o boi, por que ele não valia nada, era só
poeira, se ele chegou onde ele está há essa altura é graças a mim”, desabafa Luiz.
“Mesmo depois de não participar diretamente da organização do Caprichoso
eu ainda participo da festa, mas não como antes, não participo de ensaios, já
tenho 80 anos, esses ensaios não são pra mim, são para os jovens”. E continua:
“Eu sou sócio fundador do boi, número um do boi. Eu chego lá e todo mundo me
respeita. Até o ano passado ganhei ingresso pra assistir o festival no Bumbódromo”.
Em alguns momentos seu Luiz faz uma pequena viagem no passado, ele
se confunde, mas lembra-se de algumas coisas como se pudesse reviver os tempos
de dono e brincante do Caprichoso. O Sr. Luiz Pereira afirma que ainda tem
direito a voto na Associação Folclórica Boi-Bumbá Caprichoso.
O senhor de cabelos e
bigodes brancos se considera até hoje “o dono do boi”. Segundo ele, naquele
tempo a brincadeira dos bumbás era mais inocente, mesmo com a rivalidade, e
recorda com carinho e sorriso nos lábios do tempo em que brincava com o bumbá
até se cansar, em que organizava todos os detalhes do boi querido, desde as
confecções das fantasias até as apresentações nas ruas. Após o reconhecimento
da festa, a exibição dos bois passou a ser em um local de madeira chamado
tablado, mesmo local onde se encontra o Bumbódromo desde a década de 80.
Mesclando o passado com o presente, seu Luiz contava com pouco
dinheiro, apenas com a ajuda dos poucos comerciantes, entre a década de
sessenta e setenta, mas depois passou a receber apoio da prefeitura do
Município.
Seus
olhos brilham e solta uma gostosa gargalhada. E conta: “Uma vez em um clube de
Parintins, o Ilha Verde, o Caprichoso comemorava uma vitória e eu fui avisado
que o Garantido estava na porta e queria entrar, eu permaneci firme e disse se
eles entrassem ia ter morte e eles entraram e foi briga na certa”. E mais uma
gargalhada ao contar essa história. No final deu tudo certo, apesar de ter
briga, mas o pior não aconteceu como seu Luiz esperava. Depois da confusão o
Caprichoso continuou sua comemoração, mesmo não lembrando o ano, mas essa
comemoração e o confronto com o rival ficaram marcados em sua memória.
Apaixonado pelo azul e branco, confessa que o boi contrário em
alguns momentos superou seu boi amado.
“Tenho que confessar que às vezes o contrário arrasava
nas suas apresentações. Era muito lindo ouvir-los cantar, não era como hoje,
era emocionante, mas quando eles não estavam porres”.
E com
nostalgia recorda: “Quando saíamos nas ruas de porta em porta era bonito ouvir
as pessoas cantando na escuridão iluminadas pelas lamparinas. Era bonito demais,
apesar da rivalidade, porque se o Caprichoso encontrasse o Garantido em uma
mesma rua era briga com certeza e sempre nos encontrávamos!
- Mas
eu já namorei uma moça do garantido, era tranqüilo, não tinha rivalidade, mas
quando ela chegava aqui toda de vermelho e eu estava terminando de arrumar as
fantasias ai, ai, ai... Eu era o dono do Caprichoso e a minha namorada toda de
vermelho”, diz orgulhoso o velho Luiz.
Em
dado momento o velho brincante levanta-se de um sofá surrado pelo tempo em sua
pequena sala e tenta demonstrar o quanto era pesado o boi naquela época: “O boi
era bastante pesado, não tinha movimentos como hoje. O corpo do boi era todo de
madeira, só a cabeça era do boi de verdade mesmo. O caboclo suava pra levar nas
costas o boi, era muito pesado, depois ficavam todas machucadas as costas.
Podia laçar a cabeça do boi que ele agüentava, era firme e hoje não, é de
isopor. Se laçar o boi com a corda a cabeça quebra”.
“O
primeiro nome do boi era Galante, depois passou a se chamar Caprichoso. Quando
e porque passou a se chamar assim eu não me lembro. Tem várias histórias, eu
não lembro não, faz muito tempo”, conta seu Luiz.
O velho
torcedor faz questão de mostrar pra quem for visitá-lo e quiser saber um pouco
mais da história do boi-bumbá Caprichoso. Os certificados de honra ao mérito que
ganhou da prefeitura, guardados em um livro que conta um pouco a história do
Caprichoso e guarda com todo o cuidado e carinho algumas roupas cheias de
bordados, com muito brilho, quando participava como brincante no festival e se
ainda coubesse com certeza ele ainda as vestiria.
“Esses
certificados são a prova. Isso aqui é a prova pra quem quiser ver. Eu provo que
sou o dono do boi, todo mundo sabe”, enfatiza ele.
Acariciando suas velhas roupas, diz: “Essas
roupas são bonitas. Todas feitas pelo alfaiate, na medida. Quando eu morrer, já
falei pra minha mulher, vou com uma dessas roupas. Essa aqui com colete azul e
cheio de estrelas prata bordadas, acho que vai ser essa aqui”, diz ele, como
estivesse preparando sua despedida.
A
tristeza, em poucos momentos, pode ser vista em seu rosto ao falar do
Caprichoso, que segundo ele mudou muito do que era, mas ao relatar pequenas
cenas em uma época que tinha o prazer de organizar seu querido boi sua
fisionomia muda completamente, como se pudesse brincar por alguns instantes
como antes e poder mostrar com suas palavras e gestos o quanto era bom o boi-
bumbá Caprichoso.
Caprichoso segundo os Gonzagas
Colhidas
as informações prestadas por Luiz, partimos em busca de uma outra herdeira que
também pode ser tida como uma das “órfãs do folclore”. Rita
Gonzaga é o nome dessa mulher que carrega impresso em seu DNA a marca de um dos
protagonistas daquilo que é hoje o Festival Folclórico de Parintins.
A casa em que reside foi doada a sua mãe, dona Isolina Gonzaga
(esposa de Luís Gonzaga, falecida aos 108 anos em 2007), por um ex-presidente
da agremiação folclórica Boi-Bumbá Caprichoso, Dodozinho Carvalho, e está
localizada no terreno em que, segundo Rita, começou a brincadeira do boi.
Ela faz
questão de, a todo momento, deixar bem claro que foi seu pai, Luis Gonzaga, que
criou o Boi Caprichoso. Diz ainda que a brincadeira teve início por causa de
uma promessa.
Rita conta que
Lindolfo Monteverde (criador do Boi-Bumbá Garantido) era amigo e parente de seu
pai e também brincava no Caprichoso. A festa era feita na Rua Rio Branco, no
centro da cidade. “Luiz e Lindolfo brigaram, e surgiu então o boi Garantido. No
início o boi não tinha todo o apoio financeiro que tem hoje, quem ajudava a
brincadeira era o Sr. Didi Vieira”, relata a herdeira do boi azul. Diz ainda
que os primeiros brincantes cobravam dinheiro das pessoas para fazer
apresentações.
- “As festas
aconteciam sob a luz das lamparinas, e era como se fosse um arraial, pois eram
cheias de barraquinhas de guloseimas”, relata Rita. Ela foi a primeira rainha
do boi, já na época em que se apresentava na casa de Sr. Luis Pereira. O
próprio Luis Gonzaga confeccionava o boi, que na época era feito com samambaia,
couro de boi, etc. Dona Rita falou que Sr. Cid, que para alguns foi um dos
criadores do boi, inventou o boi Galante, que não tem nada a ver com o
caprichoso.
Ela conta que
Sr. Cid era amigo de seu pai e o ajudava bastante, principalmente na confecção
da tripa do boi, mas que nada tinha a ver com a história da criação do boi,
pois nem participar das brincadeiras ele participava. Ela conta também que o
boi Galante era pequeno e era levado na mão, diferente do Caprichoso que era
grande e vinha com um homem embaixo.
Rita contou
que uma vez, em um do encontro dos dois bois, perto do Banco do Brasil, mais
precisamente na Rua João Melo, houve um quebra-pau, e os brincantes do boi Garantido
estavam atacando a Dona Aurora, um dos personagens do Caprichoso. Foi então que
seu Luis levou Dona Aurora para a casa de uma amiga, e quando essa amiga abriu
a dona Aurora, viu que quem estava dentro era uma das filhas de Sr. Luís – normalmente
um homem vai embaixo da boneca. Dona Rita conta que sua irmã apanhou muito de
seu pai e que ficou proibida de brincar boi.
Festival Folclórico
Houve
um momento em que as ruas de Parintins já se tornavam pequenas para a
grandiosidade que estava se tornando a festa do boi-bumbá, que cada vez mais
conseguia reunir um grande contingente de torcedores e curiosos em torno de dos
bois de pano. Foi então que, em 1965, aconteceu o I Festival Folclórico de
Parintins, que aconteceu na quadra da JAC (Juventude Alegre Católica), onde não
houve a disputa entre os bumbás Garantido e Caprichoso, o que veio a acontecer
somente no II Festival Folclórico, realizado no ano de 1966.
Verdades
Como
se pode perceber, as histórias que cercam as origens dos bumbás de Parintins
são repletas de curvas, tão sinuosas quanto os caminhos percorridos pelo Rio
Amazonas em sua busca pelo Oceano Atlântico. O que encanta os que buscam
esmiuçá-la, o que, em vez de contribuir para atrapalhar as coisas, acabam por
tornar deixar as histórias mais cheias de mistérios, uma característica
marcante em tudo que envolve a Amazônia e sua gente.
O
que se sabe mesmo é que nem Lindolfo, nem os criadores do Boi-Bumbá Caprichoso
imaginavam que uma simples brincadeira de menino se transformaria em um
grandioso espetáculo de cores, que hoje em dia movimenta milhões de reais e é
patrocinado pelo governo federal, estadual e por empresas nacionais e
multinacionais.
Outra
verdade é que os herdeiros dessa magnífica história há muito passaram à
condição de meros espectadores, tendo apenas o consolo de ver os nomes de seus
ancestrais serem proclamados como os criadores dos bois. Dona Mundicaia, uma
das herdeiras legítimas de Lindolfo, garante que sua família possui documentos
que provam que o Boi-Bumbá Garantido é patrimônio dos Monte-Verde.
Em
seus relatos, falou que quando seu irmão João Batista Monte-Verde e outro
membro da família assinaram o documento que tornaria o Boi-Bumbá Garantido
patrimônio de uma Associação, foram informados que os descendentes do criador
teriam direito a 3% de todo o dinheiro que o boi arrecadasse, no entanto até
hoje o acordo nunca foi cumprido. Os herdeiros de Lindolfo afirmam que a única
coisa que é doada à família é um camarote para assistir às três noites do
festival.
Apesar de
todas essas referências, muitas vezes desencontradas, quando perguntamos a
todos que se propuseram a nos fornecer informações, segundo eles, precisas,
acerca das origens dos bois, todos nos deixaram convencidos da inutilidade de se
tentar encontrar respostas para esse que é mais um dos mistérios que povoam o
imaginário amazônico.
Reconstituir a real história está fora do
nosso alcance. O mais importan0te, contudo, talvez seja avaliar o significado e
o legado das idéias personificadas por aqueles que, involuntariamente, criaram
algo que certamente projetou Parintins “para o mundo ver”, como bem diz uma das
toadas do Boi-Bumbá Garantido.
Por
Daízes Pimentel
Gildo Assis
Ludmilla Araújo
Rebeca Azedo
Rosi Prestes
Silvia Vidinha



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