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sábado, 14 de janeiro de 2012

Festival de Parintins: expressão viva da cultura de um povo




Imagine uma pequena ilha encravada no meio da Amazônia. Uma vila habitada por algumas poucas famílias, dentre as quais poderiam ser encontrados funcionários públicos, pequenos comerciantes, pescadores e produtores rurais. Um mundo aparentemente sem chance de redenção e sem muitas atividades que proporcionassem momentos de lazer para os poucos habitantes que aqui arriscavam sobreviver. Um povo cuja vida era regida pelos dogmas, mitos e lendas que ainda hoje norteiam o caminhar do homem amazônico.
Agora imaginem entre esse punhado de gente, uns poucos caboclos pobres e com pouca formação, mas dotados de uma capacidade inventiva sem igual que em dado momento histórico resolveram ir além do óbvio e criaram os bois-bumbás que, de uma singela brincadeira de rua, transformou-se em uma das mais importantes manifestações culturais do Brasil.
Como, quando e por que isso aconteceu, na verdade ainda é um mistério, mas os homens se põem a caminho, e a história de Parintins, um pequeno pedaço de chão primitivamente habitado por indígenas, banhado pelo caudaloso Rio Amazonas, será para sempre transformada por suas trajetórias.

Origens
Não se pode falar sobre o Festival Folclórico de Parintins sem se reportar aos seus maiores expoentes, o Boi-Bumbá Garantido – que defende as cores vermelha e branca – e o Boi-Bumbá Caprichoso - que ostenta as cores azul e branca.
As origens do boi vermelho e branco podem ser consideradas mais confiáveis, pois é consenso entre todos que sua criação se deve a Lindolfo Monte-Verde. Somente com relação ao ano de fundação é que não há acordo. Os familiares de Lindolfo e os sócios afirmam que o ano exato da criação é 1913, quando ele ainda tinha onze anos de idade. Já alguns “estudiosos do folclore” que, na sua grande maioria torcem pelo boi Caprichoso, afirmam que o Garantido foi fundado em meados de 1920. Já a procedência do boi Caprichoso é uma grande incógnita.
As informações são desencontradas e nem mesmo entre os torcedores mais fanáticos existe consenso. O que se sabe mesmo é que os dois bois existem, e certamente têm contribuído sobremaneira com este chão nos aspectos econômico, cultural e social. “Parintins ganhou alma, corpo e vida através da valorização e divulgação de seu patrimônio cultural”, diz Odinéia Andrade – folclorista e torcedora do Boi-Bumbá Caprichoso.

O auto do boi
A origem do auto do bumba-meu-boi ou boi-bumbá remonta ao Ciclo do Gado, no século XVIII, resultante das relações desiguais que existiam entre os escravos e os senhores nas Casas Grandes e Senzalas. Reflete as condições sociais vividas pelos negros e índios naqueles tempos.
Contado e recontado através dos tempos, na tradição oral nordestina, e depois espalhada pelo Brasil, a lenda fundante adquire contornos de sátira, comédia, tragédia e drama, conforme o lugar em que se revive, mas sempre levando em consideração a estória de um homem e um boi, ou seja, o contraste entre, por um lado, a fragilidade do homem e a força bruta do boi e, por outro lado, a inteligência do homem e a estupidez do animal.
Do ponto de vista teatral, o folguedo deriva da tradição portuguesa e espanhola, tanto no que diz respeito ao desfile quanto à representação propriamente dita, de se encenarem peças religiosas de inspiração erudita, mas destinadas ao povo para comemorar festas católicas nascidas na luta da Igreja contra o paganismo.
Esse costume foi retomado no Brasil pelos jesuítas em sua obra de evangelização dos indígenas, negros e dos próprios portugueses aventureiros e conquistadores por meio da encenação de pequenas peças.
A estória se passa numa fazenda situada no interior do país. Encontram-se entre as personagens principais um negro vaqueiro – Pai Francisco, sua mulher cabocla - Mãe Catirina, e um homem branco, dono da fazenda e, portanto, do touro estimado. A estas personagens principais e fixas podem juntar-se outras personagens móveis dependendo da região onde ainda permanece o hábito de representar esse conto.
Diz a lenda que Mãe Catirina, estava grávida e foi tomada pelo incontrolável desejo de comer língua de boi, mas não era de qualquer boi, tinha que será língua do animal predileto do patrão. Temendo que o filho nascesse doente, Pai Francisco, num ato de desespero, mata o boi preferido de seu amo e oferece a língua à mulher, desencadeando uma perseguição que só acaba quando um padre e um pajé conseguem ressuscitar o animal.

A saga do Garantido
Com o propósito de tentar entender a história das origens do festival de Parintins, partimos em busca de informações que pudessem colocar uma luz sobre a ascendência dessa festa. Foi assim que resolvermos buscar os vestígios da história junto àqueles que a evolução da brincadeira relegou ao papel de “órfãos do folclore”.      
Em uma humilde casa, localizada na baixa da Xanda – uma homenagem feita a Alexandrina Monte-Verde, de frente para Rio Amazonas, dona Raimunda Monte-Verde Tavares, a Mundicaia, nos recebeu confortavelmente acomodada em um sofá surrado pelo tempo, coberto com uma napa de cor alaranjada. Embaixo de seu pé direito um tapete confeccionado com retalhos que ela mesma produz.
 Mundicaia não possui a perna esquerda que fora amputada por causa de um diabetes. Em lugar do membro perdido há uma prótese emborrachada que ajuda em sua locomoção. Trajava um vestido de algodão azul rendinha, vestuário típico da idade, em seu rosto marcas deixadas pelo tempo, os cabelos estão grisalhos e uma memória que o tempo ainda não consumiu.
“Entrem” - disse sorrindo a nossa anfitriã, deixando-nos perceber uma característica bem comum aos nativos dessa ilha, a hospitalidade. Ao saber que estávamos ali para coletar informações acerca das origens do Boi-Bumbá Garantido, adiantou: “não tenho muito estudo e posso falar algumas palavras erradas”.
Ao falar de Lindolfo foi possível perceber o encantamento com que pronunciava cada palavra, e relatou os acontecimentos como se tivesse acontecido há pouco tempo.
- “Meu pai nasceu no ano de 1902, o nome da minha avó era Alexandrina Monte-Verde, a Dona “Xanda”, conta Mundicaia. “Ele não conheceu o pai porque a minha avó, depois que perdeu o primeiro marido, convivia com um homem por três ou quatro anos, depois deixava e convivia com outro”, explica Raimunda Monte-Verde, a filha de Lindolfo, que ainda mantém vivas na lembrança as histórias sobre o pai. Uma das narrativas sobre a origem de Lindolfo diz que seu genitor seria “um tal de Marcelo Rolim”, diz ela sem saber ao certo a verdade. 
Quando era criança, diz ela, “meu pai era um menino muito alegre e curioso. Desde muito pequeno ele ouvia as histórias de seu avô Alexandre Monte-Verde, vindo da África, que contava que lá (África) as crianças tinham o hábito de confeccionar um boi que era feito de forma artesanal”. “Os meninos pegavam um pedaço de madeira e colocavam em uma das extremidades uma cabeça de boi e depois desafiavam os outros para um combate.
“Normalmente o boi mais fraco ficava sem a cabeça enquanto que o mais forte saía vitorioso e desafiava outros bois para a luta”, conta Raimunda, deixando desabrochar um sorriso repleto de encanto.
Pensando nisso Lindolfo resolveu criar um boizinho para brincar. Isso ocorreu em 1913. “Certa vez em uma das brincadeiras com os amigos a mãe de Lindolfo pôde descobrir onde estava a capa de seu guarda-chuva. Lindolfo simplesmente usou-a como couro do boi”, conta D. Mundicaia, dando a entender que o Garantido um dia já foi preto, idéia que os torcedores mais apaixonados rejeitam veementemente.
“Na época de meus avós as pessoas não se preocupavam em ter os documentos de seus terrenos, habitavam terras que não eram suas, e nunca se incomodavam com os verdadeiros donos dessas propriedades, pois geralmente não apareciam. Minha avó ficou muito triste quando soube que um empresário de Manaus chamado Natalino Nogueira era o dono das terras e preocupada com a possibilidade de ser deposta de sua moradia, pedia toda tarde a seus filhos que rezassem com ela para que Sr. Nogueira não voltasse à cidade e desistisse de suas terras.”
Lindolfo e sua família já cultivavam no terreno seringa, mandioca, castanha e  caju. Sr. Natalino, em uma de suas visitas a Parintins, viu suas terras bem cuidadas e falou para dona Alexandrina que não iria remover sua família da propriedade, mas em troca levaria Lindolfo para trabalhar com ele na capital, “não seria como escravo”, diz Raimunda, seu pagamento seria metade em dinheiro e a outra parte seria descontada em troca das terras que abrigavam sua família.
“Minha avó sofreu muito com a partida de Lindolfo, pensava no sofrimento que o filho iria passar pra pagar essas terras”. Em suas cartas, Monte-Verde relatava tudo que acontecia com ele na capital, e junto com as cartas vinha também dinheiro para ajudar no sustento da casa.

A promessa de Lindolfo
Certo dia, para cumprir uma ordem do patrão, Lindolfo, em companhia de outros trabalhadores, entrou na mata para extrair madeira, episódio em que contraiu uma grave infecção intestinal devido a sua alimentação precária composta basicamente de feijão. Ainda na mata, sem recursos e sozinho, Lindolfo, que era homem de muita fé, fez uma promessa a São João Batista para obter sua cura.
A promessa era de que todo ano o boi sairia nas ruas, nos dias de São João, Santo Antonio e São Pedro. O milagre aconteceu, Lindolfo recebeu a cura divina e o boi Garantido, a partir desse momento, nunca mais seria o mesmo. 
No auge de sua juventude, Lindolfo muitas vezes teve que viajar em busca de recursos para sustentar a família e durante sua ausência deixava sua preciosa criação nas mãos dos cunhados, mas na época da festa se fazia sempre presente, cumprindo o que prometera a São João Batista.
O Coração na testa do boi foi idéia de D. Xanda, que ao ver o boi ser confeccionado, pediu que cortassem um pedaço de papel vermelho em forma de coração e colassem na testa.

Brincadeira de rua
Os ensaios iniciavam sempre no dia 5 de maio, onde ainda hoje está instalado o curral do Boi-Bumbá Garantido, e as apresentações em frente às residências ocorriam até o final do mês de junho. Durantes essas evoluções, “a língua do boi era ofertada aos moradores, estes pagavam para ter um pedaço da língua do touro amado”, conta Mundicaia.
O patacão (dinheiro) proveniente da venda da língua servia de pagamento para o cantor das toadas e para uma espécie de confraternização oferecida aos brincantes no final da apresentação. Antes que fosse entregue o prêmio ao torcedor, um ritual de matança do boi era realizado. Antes da matança, o cantor de toadas entoava:

“Senhor mestre tira a língua,
Faz a tua obrigação,
E leve ao dono da casa
receba seu patacão”.

Então, pai Francisco matava o boi, cortava um pedaço de fita que representava a língua e pronunciava:
Daqui, daqui, um caldo grosso.
Daqui, daqui um guisado.
Daqui, daqui um frito.

Após o ritual da matança, a língua era entregue ao comprador como prêmio, logo acontecia outro cerimonial, onde um padre e um pajé eram chamados e faziam o boi ressuscitar prosseguindo com a festa.
Naquela época as mulheres não participavam da brincadeira, podiam se conformar apenas como telespectadoras; os itens femininos eram defendidos pelos próprios homens que se fantasiavam de mulher.

A saga do Caprichoso
Para explorar as origens do Boi-Bumbá Caprichoso, procuramos um de seus vários “donos”, que nos recebeu em sua casa construída em madeira e alvenaria, localizada na Rua Cordovil, no centro da cidade de Parintins, no mesmo local onde era o antigo Curral do Caprichoso, onde ainda mora o seu Luiz Pereira dos Santos, conhecido até os dias de hoje como o “dono do boi Caprichoso”.
As informações por ele prestadas contrastam com as relatadas pelo escritor e historiador amazonense Tonzinho Saunier (1932-1999) e também com a versão defendida por Odinéia Andrade – Folclorista e torcedora do “touro negro”. Segundo Tonzinho, “o boi Caprichoso surgiu em 1913, trazido de Manaus pelo senhor Emídio Vieira” (SAUNIER, 2003). Já para Odinéia, o criador do Boi-Bumbá Caprichoso foi Roque Cid.
O senhor de olhos claros e desconfiados, camisa e bermuda azuis, as mesmas cores da decoração de sua casa, onde em cada canto as cores azul e branco predominam, perde a desconfiança ao ouvir o nome do Caprichoso e responde com orgulho uma frase que repete há muitos anos:
“O boi teve sete donos, o oitavo e último fui eu. Para mim me tornar o dono, o boi ficou largado em cima de um girau, aí passou dois ou três anos, ai eu falei com o meu sogro”:
- “Bora lá pegar o Caprichoso”? Ai fui lá pedir e botei pra frente o boi que estava esquecido. Eu só não lembro mais o ano. Só de boi eu tenho 35 anos, daí tu tira”.
“Fui eu que ajudei o boi, por que ele não valia nada, era só poeira, se ele chegou onde ele está há essa altura é graças a mim”, desabafa Luiz.
“Mesmo depois de não participar diretamente da organização do Caprichoso eu ainda participo da festa, mas não como antes, não participo de ensaios, já tenho 80 anos, esses ensaios não são pra mim, são para os jovens”. E continua: “Eu sou sócio fundador do boi, número um do boi. Eu chego lá e todo mundo me respeita. Até o ano passado ganhei ingresso pra assistir o festival no Bumbódromo”.
Em alguns momentos seu Luiz faz uma pequena viagem no passado, ele se confunde, mas lembra-se de algumas coisas como se pudesse reviver os tempos de dono e brincante do Caprichoso. O Sr. Luiz Pereira afirma que ainda tem direito a voto na Associação Folclórica Boi-Bumbá Caprichoso.
 O senhor de cabelos e bigodes brancos se considera até hoje “o dono do boi”. Segundo ele, naquele tempo a brincadeira dos bumbás era mais inocente, mesmo com a rivalidade, e recorda com carinho e sorriso nos lábios do tempo em que brincava com o bumbá até se cansar, em que organizava todos os detalhes do boi querido, desde as confecções das fantasias até as apresentações nas ruas. Após o reconhecimento da festa, a exibição dos bois passou a ser em um local de madeira chamado tablado, mesmo local onde se encontra o Bumbódromo desde a década de 80.
Mesclando o passado com o presente, seu Luiz contava com pouco dinheiro, apenas com a ajuda dos poucos comerciantes, entre a década de sessenta e setenta, mas depois passou a receber apoio da prefeitura do Município.
Seus olhos brilham e solta uma gostosa gargalhada. E conta: “Uma vez em um clube de Parintins, o Ilha Verde, o Caprichoso comemorava uma vitória e eu fui avisado que o Garantido estava na porta e queria entrar, eu permaneci firme e disse se eles entrassem ia ter morte e eles entraram e foi briga na certa”. E mais uma gargalhada ao contar essa história. No final deu tudo certo, apesar de ter briga, mas o pior não aconteceu como seu Luiz esperava. Depois da confusão o Caprichoso continuou sua comemoração, mesmo não lembrando o ano, mas essa comemoração e o confronto com o rival ficaram marcados em sua memória.
Apaixonado pelo azul e branco, confessa que o boi contrário em alguns momentos superou seu boi amado. “Tenho que confessar que às vezes o contrário arrasava nas suas apresentações. Era muito lindo ouvir-los cantar, não era como hoje, era emocionante, mas quando eles não estavam porres”.
E com nostalgia recorda: “Quando saíamos nas ruas de porta em porta era bonito ouvir as pessoas cantando na escuridão iluminadas pelas lamparinas. Era bonito demais, apesar da rivalidade, porque se o Caprichoso encontrasse o Garantido em uma mesma rua era briga com certeza e sempre nos encontrávamos!
- Mas eu já namorei uma moça do garantido, era tranqüilo, não tinha rivalidade, mas quando ela chegava aqui toda de vermelho e eu estava terminando de arrumar as fantasias ai, ai, ai... Eu era o dono do Caprichoso e a minha namorada toda de vermelho”, diz orgulhoso o velho Luiz.
Em dado momento o velho brincante levanta-se de um sofá surrado pelo tempo em sua pequena sala e tenta demonstrar o quanto era pesado o boi naquela época: “O boi era bastante pesado, não tinha movimentos como hoje. O corpo do boi era todo de madeira, só a cabeça era do boi de verdade mesmo. O caboclo suava pra levar nas costas o boi, era muito pesado, depois ficavam todas machucadas as costas. Podia laçar a cabeça do boi que ele agüentava, era firme e hoje não, é de isopor. Se laçar o boi com a corda a cabeça quebra”.
“O primeiro nome do boi era Galante, depois passou a se chamar Caprichoso. Quando e porque passou a se chamar assim eu não me lembro. Tem várias histórias, eu não lembro não, faz muito tempo”, conta seu Luiz.
O velho torcedor faz questão de mostrar pra quem for visitá-lo e quiser saber um pouco mais da história do boi-bumbá Caprichoso. Os certificados de honra ao mérito que ganhou da prefeitura, guardados em um livro que conta um pouco a história do Caprichoso e guarda com todo o cuidado e carinho algumas roupas cheias de bordados, com muito brilho, quando participava como brincante no festival e se ainda coubesse com certeza ele ainda as vestiria.
“Esses certificados são a prova. Isso aqui é a prova pra quem quiser ver. Eu provo que sou o dono do boi, todo mundo sabe”, enfatiza ele.
 Acariciando suas velhas roupas, diz: “Essas roupas são bonitas. Todas feitas pelo alfaiate, na medida. Quando eu morrer, já falei pra minha mulher, vou com uma dessas roupas. Essa aqui com colete azul e cheio de estrelas prata bordadas, acho que vai ser essa aqui”, diz ele, como estivesse preparando sua despedida.
A tristeza, em poucos momentos, pode ser vista em seu rosto ao falar do Caprichoso, que segundo ele mudou muito do que era, mas ao relatar pequenas cenas em uma época que tinha o prazer de organizar seu querido boi sua fisionomia muda completamente, como se pudesse brincar por alguns instantes como antes e poder mostrar com suas palavras e gestos o quanto era bom o boi- bumbá Caprichoso.

Caprichoso segundo os Gonzagas
 Colhidas as informações prestadas por Luiz, partimos em busca de uma outra herdeira que também pode ser tida como uma das “órfãs do folclore”. Rita Gonzaga é o nome dessa mulher que carrega impresso em seu DNA a marca de um dos protagonistas daquilo que é hoje o Festival Folclórico de Parintins.
A casa em que reside foi doada a sua mãe, dona Isolina Gonzaga (esposa de Luís Gonzaga, falecida aos 108 anos em 2007), por um ex-presidente da agremiação folclórica Boi-Bumbá Caprichoso, Dodozinho Carvalho, e está localizada no terreno em que, segundo Rita, começou a brincadeira do boi.
Ela faz questão de, a todo momento, deixar bem claro que foi seu pai, Luis Gonzaga, que criou o Boi Caprichoso. Diz ainda que a brincadeira teve início por causa de uma promessa.
Rita conta que Lindolfo Monteverde (criador do Boi-Bumbá Garantido) era amigo e parente de seu pai e também brincava no Caprichoso. A festa era feita na Rua Rio Branco, no centro da cidade. “Luiz e Lindolfo brigaram, e surgiu então o boi Garantido. No início o boi não tinha todo o apoio financeiro que tem hoje, quem ajudava a brincadeira era o Sr. Didi Vieira”, relata a herdeira do boi azul. Diz ainda que os primeiros brincantes cobravam dinheiro das pessoas para fazer apresentações.
- “As festas aconteciam sob a luz das lamparinas, e era como se fosse um arraial, pois eram cheias de barraquinhas de guloseimas”, relata Rita. Ela foi a primeira rainha do boi, já na época em que se apresentava na casa de Sr. Luis Pereira. O próprio Luis Gonzaga confeccionava o boi, que na época era feito com samambaia, couro de boi, etc. Dona Rita falou que Sr. Cid, que para alguns foi um dos criadores do boi, inventou o boi Galante, que não tem nada a ver com o caprichoso.
Ela conta que Sr. Cid era amigo de seu pai e o ajudava bastante, principalmente na confecção da tripa do boi, mas que nada tinha a ver com a história da criação do boi, pois nem participar das brincadeiras ele participava. Ela conta também que o boi Galante era pequeno e era levado na mão, diferente do Caprichoso que era grande e vinha com um homem embaixo.
Rita contou que uma vez, em um do encontro dos dois bois, perto do Banco do Brasil, mais precisamente na Rua João Melo, houve um quebra-pau, e os brincantes do boi Garantido estavam atacando a Dona Aurora, um dos personagens do Caprichoso. Foi então que seu Luis levou Dona Aurora para a casa de uma amiga, e quando essa amiga abriu a dona Aurora, viu que quem estava dentro era uma das filhas de Sr. Luís – normalmente um homem vai embaixo da boneca. Dona Rita conta que sua irmã apanhou muito de seu pai e que ficou proibida de brincar boi.

Festival Folclórico
Houve um momento em que as ruas de Parintins já se tornavam pequenas para a grandiosidade que estava se tornando a festa do boi-bumbá, que cada vez mais conseguia reunir um grande contingente de torcedores e curiosos em torno de dos bois de pano. Foi então que, em 1965, aconteceu o I Festival Folclórico de Parintins, que aconteceu na quadra da JAC (Juventude Alegre Católica), onde não houve a disputa entre os bumbás Garantido e Caprichoso, o que veio a acontecer somente no II Festival Folclórico, realizado no ano de 1966.

Verdades
Como se pode perceber, as histórias que cercam as origens dos bumbás de Parintins são repletas de curvas, tão sinuosas quanto os caminhos percorridos pelo Rio Amazonas em sua busca pelo Oceano Atlântico. O que encanta os que buscam esmiuçá-la, o que, em vez de contribuir para atrapalhar as coisas, acabam por tornar deixar as histórias mais cheias de mistérios, uma característica marcante em tudo que envolve a Amazônia e sua gente.
O que se sabe mesmo é que nem Lindolfo, nem os criadores do Boi-Bumbá Caprichoso imaginavam que uma simples brincadeira de menino se transformaria em um grandioso espetáculo de cores, que hoje em dia movimenta milhões de reais e é patrocinado pelo governo federal, estadual e por empresas nacionais e multinacionais.
Outra verdade é que os herdeiros dessa magnífica história há muito passaram à condição de meros espectadores, tendo apenas o consolo de ver os nomes de seus ancestrais serem proclamados como os criadores dos bois. Dona Mundicaia, uma das herdeiras legítimas de Lindolfo, garante que sua família possui documentos que provam que o Boi-Bumbá Garantido é patrimônio dos Monte-Verde.
Em seus relatos, falou que quando seu irmão João Batista Monte-Verde e outro membro da família assinaram o documento que tornaria o Boi-Bumbá Garantido patrimônio de uma Associação, foram informados que os descendentes do criador teriam direito a 3% de todo o dinheiro que o boi arrecadasse, no entanto até hoje o acordo nunca foi cumprido. Os herdeiros de Lindolfo afirmam que a única coisa que é doada à família é um camarote para assistir às três noites do festival.

Apesar de todas essas referências, muitas vezes desencontradas, quando perguntamos a todos que se propuseram a nos fornecer informações, segundo eles, precisas, acerca das origens dos bois, todos nos deixaram convencidos da inutilidade de se tentar encontrar respostas para esse que é mais um dos mistérios que povoam o imaginário amazônico.
 Reconstituir a real história está fora do nosso alcance. O mais importan0te, contudo, talvez seja avaliar o significado e o legado das idéias personificadas por aqueles que, involuntariamente, criaram algo que certamente projetou Parintins “para o mundo ver”, como bem diz uma das toadas do Boi-Bumbá Garantido.



Por
Daízes Pimentel
 Gildo Assis
 Ludmilla Araújo
 Rebeca Azedo
 Rosi Prestes
  Silvia Vidinha

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